Artigo escrito por Érico Colodeti Filho, especialista em investimentos pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Especialista em criptomoedas pela Associação Nacional das Corretoras Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord). Professor universitário.
O endividamento das famílias brasileiras atingiu níveis alarmantes, e o governo, em vez de assumir responsabilidade, aponta o dedo para os bancos. Recentemente, o presidente Lula e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reconheceram o problema: mais de 100 milhões de brasileiros pagam juros acima de 100% ao ano no crédito rotativo do cartão (até 424,5% a.a.) e cheque especial.
Lula pediu medidas à Fazenda para aliviar o peso, enquanto Galípolo defendeu alternativas “estruturais”. Porém, essa narrativa ignora a raiz: a falta crônica de educação financeira da população, agravada pela inflação alimentada pelos gastos públicos excessivos, que o governo não doma apesar do arcabouço fiscal.
Pesquisas como a da Serasa Experian confirmam o caos: 5 em cada 10 trabalhadores não chegam ao fim do mês com salário na conta, 67% sobreviveriam só 1 mês sem renda, e o endividamento causa estresse (66%), irritabilidade (43%) e insônia (39%). Nesse sentido, sem educação financeira básica, o brasileiro recorre ao cheque especial e cartão rotativo, modalidades de alto risco com spreads bancários explosivos. Por quê? Porque a Selic alta (para combater inflação) eleva o custo de captação dos bancos, que repassam ao cliente final.
E quem impulsiona a inflação? Gastos governamentais acima do teto fiscal, rombos primários crônicos e políticas expansionistas que injetam dinheiro na economia sem contrapartida produtiva.
O governo reclama dos juros “abusivos”, mas não corta suas próprias gorduras. Em 2025-2026, o déficit primário persiste, forçando o BC a manter juros elevados para ancorar expectativas inflacionárias. Resultado: o brasileiro paga a conta dupla – inflação erode o poder de compra (alimentos +15% em 2025) e dívidas viram bola de neve.
Uma família sem reserva de emergência entra no ciclo vicioso: gasta mais para compensar, endivida-se e afunda em juros compostos. Educação financeira quebra isso: ensina a viver dentro do possível, priorizar reservas (6-12 meses de despesas) e investir em renda fixa segura, blindando contra inflação.
Enquanto Lula discursa sobre “soluções”, o arcabouço fiscal é furado por emendas parlamentares e auxílios sem contrapartida. Sem disciplina fiscal, a Selic se manterá em dois dígitos, os spreads não encolhem e o povo continua refém.
