Starbucks encerra parceria com investidores chineses e aposta na China como protagonista do mercado cafeeiro futuro

No início de abril, a decisão da Starbucks pode parecer distante da realidade dos produtores de café no Espírito Santo. No entanto, o que ocorreu em 2 de abril é de grande relevância para aqueles que cultivam grãos de qualidade na região.

A gigante do café anunciou o término oficial da parceria com a Boyu Capital, uma proeminente firma de investimento privado da China. Com essa nova configuração, a Boyu agora controla 60% das operações de varejo da Starbucks no país asiático, enquanto a empresa americana mantém 40% e continua a ser proprietária da marca e das propriedades intelectuais associadas.

Esse movimento foi revelado em novembro de 2025 e concretizado rapidamente, evidenciando a importância estratégica que o mercado chinês representa para a Starbucks, a maior rede de cafeterias do mundo.

Atualmente, a joint venture gerencia cerca de 8.000 cafeterias na China, com planos ambiciosos para aumentar esse número para 20.000 unidades no futuro. Contudo, essa decisão não é isolada; ela reflete uma resposta direta à concorrência crescente da Luckin Coffee, que foi fundada em 2017 e se destacou por seu crescimento sem precedentes na indústria cafeeira.

A Luckin Coffee, criada por ex-executivos do setor tecnológico, não seguiu os modelos tradicionais das cafeterias. A empresa não possui caixas ou balcões; todas as transações são realizadas por meio de um aplicativo que oferece preços aproximadamente 30% mais baixos que os da Starbucks.

O resultado dessa abordagem inovadora foi uma ascensão impressionante: atualmente, a Luckin opera mais de 22.000 lojas na China, adotando um modelo de franquia leve e ciclos rápidos na inovação de produtos. Em 2024, a rede conquistou mais de 100 milhões de novos clientes e obteve uma receita líquida de US$ 4,74 bilhões, representando um aumento de 38,4% em comparação ao ano anterior.

A competição acirrada levou a Starbucks a reavaliar sua estratégia no mercado chinês e buscar um parceiro local que compreenda melhor o consumidor chinês. Assim, a joint venture com a Boyu é mais do que uma expansão; trata-se de uma resposta estratégica para manter uma presença significativa em um mercado onde mais de 80% das redes de cafeterias são chinesas.

O mercado chinês é notável: há seis anos, o Brasil exportava apenas US$ 32,9 milhões em café para a China anualmente. Em março de 2026, esse valor saltou para US$ 402,8 milhões — um crescimento superior a doze vezes em apenas seis anos. Embora o consumo no varejo chinês ainda represente apenas 1% do total global (comparado com 8% no Brasil e 17% nos Estados Unidos), no segmento das lojas especializadas, a China já ocupa a segunda posição mundial com um mercado avaliado em US$ 21,8 bilhões. Há muito espaço para crescimento nesse setor.

A Luckin também já tomou medidas para garantir seu fornecimento. A empresa firmou parcerias estratégicas com a ApexBrasil e planeja adquirir 240 mil toneladas de café brasileiro entre 2025 e 2029 sob um contrato estimado em US$ 2,5 bilhões. Além disso, estabeleceu um escritório no Brasil e está desenvolvendo uma base agrícola voltada para café de alta qualidade com suporte dedicado aos produtores locais.

Esse cenário traz implicações diretas para os produtores capixabas. O Espírito Santo é destacado como o maior produtor de conilon do Brasil — exatamente o tipo utilizado em larga escala por redes como a Luckin em seus blends acessíveis. As oportunidades também favorecem os cultivos de arábica em altitudes elevadas, cujos perfis sensoriais são valorizados nos segmentos premium onde a Starbucks compete.

Com o crescimento da Starbucks na China e as compras massivas da Luckin por café brasileiro, o Espírito Santo se torna relevante nas dinâmicas competitivas entre essas duas corporações. O mercado chinês de café deixou de ser apenas uma tendência; tornou-se uma realidade consolidada que movimenta bilhões anualmente e continua se expandindo. A rivalidade entre Starbucks e Luckin também representa uma oportunidade que começa nas lavouras do Espírito Santo.

By Aconteceu SP

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