Jetour se prepara para desembarcar no Espírito Santo após a GWM, visando estabelecer sua fábrica na região.

Após a GWM, outra fabricante chinesa está considerando o Espírito Santo como um ponto central em sua estratégia industrial no Brasil. A Jetour, que faz parte do grupo Chery, está analisando propostas para iniciar a produção local no país. Conforme Sid Huang, vice-presidente da Jetour Brasil, o Espírito Santo é uma das opções em avaliação. A decisão deve ser anunciada ainda este ano. Huang esteve em Vitória para a inauguração da nova concessionária da marca, localizada na Reta da Penha, nesta quinta-feira (2). Ele comentou que, para assegurar vendas sustentáveis no Brasil, a Jetour reconhece a necessidade de produzir no território nacional, adaptando seus produtos ao gosto dos consumidores brasileiros e estabelecendo uma operação mais próxima do mercado. Trazer veículos diretamente da China não é suficiente; é essencial se tornar, segundo suas palavras, uma empresa “no Brasil e para o Brasil”.

A Chery se posiciona atualmente como a terceira maior montadora chinesa, ficando atrás apenas da BYD e Geely. No Brasil, opera com as marcas Caoa Chery, Omoda &, Jaecoo e Jetour. Em 2025, reportou vendas globais de aproximadamente 2,8 milhões de veículos, um aumento de quase 8%. A Caoa Chery já iniciou discussões sobre a possibilidade de abrir uma fábrica no Espírito Santo, conforme mencionado em abril deste ano. Assim sendo, o interesse da Jetour é genuíno e pode estar prestes a se concretizar.

A declaração de Huang não estabelece uma escolha definitiva pelo Estado, mas abre uma possibilidade significativa.

Nossa intenção é chegar a uma decisão em breve. Esperamos que até o final deste ano possamos dar início à produção local.

Sid Huang, vice-presidente da Jetour Brasil

Embora ele não tenha confirmado que o ES será escolhido, reconheceu que há propostas em análise para a fábrica no Brasil e que existem alternativas envolvendo o Espírito Santo. Isso indica que o Estado está fortemente considerado nesta negociação.

A relevância do porto na decisão

A Jetour já utiliza o Espírito Santo como um ponto estratégico para importar seus veículos. O Estado oferece infraestrutura portuária, acesso ao restante do país, experiência em comércio exterior e um perfil de consumidor que se alinha às propostas da marca. Huang destacou que o Espírito Santo possui um papel “muito estratégico” para a companhia. Para ele, as estradas locais, o modo de vida e os hábitos de viagem dos capixabas estão conectados ao DNA da Jetour.

Esse aspecto é crucial pois a Jetour vê o Estado não apenas como um local de venda. A montadora considera o Espírito Santo como uma plataforma: inicialmente para importação, depois para distribuição e agora possivelmente para produção. Essa lógica foi também fundamental na escolha da GWM por Aracruz. Quando uma fabricante chinesa decide entrar no mercado brasileiro em grande escala, a logística torna-se parte essencial do produto ofertado.

A fabricação local deixou de ser apenas uma opção conveniente e tornou-se uma necessidade competitiva. Huang mencionou que tarifas elevadas, custos de transporte e aumento na concorrência tornam cada vez mais crucial a localização das operações.

A meta global reforça essa visão: o Brasil é considerado um dos mercados mais estratégicos para a Jetour fora da China. A empresa tem como meta vender mais de 100 mil unidades até 2030. Para atingir esse volume significativo, embora as importações ajudem inicialmente, elas não são suficientes por si só. Com um crescimento robusto vem a necessidade de fábricas locais, rede de distribuição adequada e suporte pós-venda abrangente.

Veículos voltados para experiências

A Jetour também busca se destacar dentro do recente movimento das montadoras chinesas no Brasil. Huang mencionou GWM, BYD, GAC e Leapmotor como parte desse fenômeno crescente no país; porém enfatizou que deseja diferenciar a Jetour dessa competição direta. A marca não aspira conquistar todo o mercado; seu objetivo é liderar seu segmento específico.

Esse segmento possui características bem definidas: SUVs com design quadrado e aptidão off-road; modelos híbridos focados no público familiar. A proposta da Jetour é ser um “carro de experiências”, priorizando personalização; ao invés de simplesmente oferecer transporte, busca proporcionar viagens memoráveis recheadas de aventura e estilo de vida familiar. Essa abordagem é emocionalmente envolvente e visa atrair consumidores dispostos a investir em identidade única e tecnologia diferenciada.

E essa filosofia estará presente nos próximos lançamentos da marca. A Jetour planeja introduzir o T2 4×4 após receber feedbacks sobre desempenho off-road; além disso, apresentará o G700 — um modelo robusto com cerca de 900 cavalos — e também o S08/i08 híbrido com capacidade para sete pessoas destinado às famílias. A marca pretende utilizar o Brasil como seu principal mercado para novos produtos e está determinada a adaptar seus veículos conforme as preferências dos consumidores locais. Para isso contará com uma equipe dedicada à pesquisa e um centro de desenvolvimento localizado no país.

Desafios na infraestrutura de carregamento

<pQuanto aos veículos elétricos, Huang admite que ainda há muito trabalho pela frente na questão das estações de carregamento no Brasil. Contudo, ele não considera isso um impedimento intransponível. Sua perspectiva baseia-se na experiência adquirida na China: Cerca de dez anos atrás era complicado carregar um carro elétrico lá; hoje em dia essa realidade mudou significativamente devido à evolução tecnológica.

Huang mencionou que recargas rápidas podem levar entre 10 a 15 minutos para alcançar entre 30% e 80% da carga total e observou que muitos usuários já utilizam carregadores em casa ou em locais públicos como shoppings ou empresas. Ele também falou sobre iniciativas potencialmente vantajosas como wallboxes gratuitos e parcerias com empresas locais visando facilitar esse processo. A mensagem é clara: embora ainda haja espaço para melhorias na infraestrutura atual, a tecnologia avança rapidamente superando as incertezas do mercado.

As declarações do vice-presidente da Jetour no Brasil revelam algo além da simples entrada de mais uma marca chinesa no mercado local. Elas indicam que o Espírito Santo está emergindo como peça-chave numa nova fase da indústria automotiva brasileira. A primeira etapa foi focada nas importações; agora estamos diante do potencial início da produção local. Se a Jetour avançar nessa direção após a GWM, isso significará que o Estado não será apenas um corredor logístico mas poderá competir ativamente na cadeia produtiva dos veículos chineses no Brasil — transformando essa situação em uma estratégia econômica significativa.

By Aconteceu SP

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