*Artigo elaborado por Diana Mantovani Zanotelli, bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Vitória (FDV), cofundadora da Diluz – uma empresa focada em registro de marcas e integrante do IBEF Academy.
Será que realmente existe uma discrepância tão grande entre os desejos de empregadores e empregados?
A ideia de que a relação entre essas duas partes é intrinsecamente conflituosa é bastante comum. De um lado, há o empregador buscando cortar custos ao máximo; do outro, o empregado empenhado em obter o melhor retorno possível da empresa. Essa dinâmica assemelha-se a um jogo em que um deve perder para que o outro ganhe.
No entanto, essa narrativa repetitiva acaba moldando a percepção sobre essa relação, frequentemente baseada mais em suposições do que na realidade das interações que realmente ocorrem.
É interessante observar como essa relação é frequentemente retratada. Muitos comentam sobre empresários que exploram seus funcionários, colaboradores que se limitam ao mínimo necessário e empresas que lucram “à custa” das pessoas, enquanto os trabalhadores estão sempre em desvantagem.
Embora existam casos que confirmem essas afirmações, elas tendem a ser tratadas como uma norma geral, simplificando uma relação que é muito mais complexa e dinâmica.
A visão prevalente parte de uma premissa específica: a crença de que essa relação opera como um jogo de soma zero. Este raciocínio, abordado criticamente por Thomas Sowell em “Fatos e Falácias da Economia”, sugere que para alguém ganhar, outro deve necessariamente perder.
Nessa perspectiva, a riqueza seria apenas redistribuída e não criada. Assim, quanto mais lucro obtiver o empregador, menos sobraria para o empregado e vice-versa.
No entanto, o maior erro nessa discussão reside na compreensão do crescimento. As empresas não simplesmente retiram riqueza de um sistema fixo; elas criam valor e fazem esse valor aumentar.
Quando uma empresa alcança lucros saudáveis, ela tende a investir mais: seja em infraestrutura, expansão, tecnologia ou principalmente nas pessoas que nela trabalham. O lucro possibilita esse crescimento. Quando um colaborador se desenvolve, ele agrega mais valor à organização e amplia suas perspectivas. Portanto, não se trata de uma competição adversarial, mas sim de uma colaboração mútua.
De fato, as empresas prosperam ao gerarem valor real e os funcionários se mantêm relevantes ao contribuírem com tal valor. Não há como ter uma empresa robusta sem uma equipe capacitada ou uma equipe valorizada dentro de uma organização insustentável.
Essencialmente, o que existe entre empregador e empregado é um acordo mútuo. Um lado oferece remuneração, estrutura e oportunidades; enquanto o outro disponibiliza tempo, habilidades e dedicação.
E essa parceria não surge por imposição; ela ocorre porque faz sentido para ambas as partes naquele momento específico. As pessoas avaliam o que consideram justo com base na capacidade de gerar valor, na importância do cargo ocupado e nas oportunidades disponíveis no mercado.
Caso esse equilíbrio seja rompido, o acordo pode ser desfeito. O empregador poderá perder um funcionário e precisará buscar outro; por sua vez, o empregado pode deixar sua posição à procura de um novo ambiente profissional. Embora não seja um sistema perfeito, ele é dinâmico e as decisões são constantemente ajustadas.
Quando essa parceria não se concretiza — seja devido à falta de valorização do colaborador pelo empregador ou pela falta de entrega do colaborador — entra em cena um aspecto crucial: a responsabilidade individual.
Assumir responsabilidade implica tomar controle sobre as próprias escolhas e suas consequências. Para um líder, isso envolve reconhecer que os resultados da equipe dependem significativamente das decisões tomadas por ele: quem foi contratado, como ocorreu a liderança e qual cultura foi estabelecida. Se algo não está funcionando conforme esperado, é necessário assumir a responsabilidade e realizar ajustes.
Por outro lado, para o colaborador insatisfeito com sua valorização ou seu caminho profissional atual também existem alternativas viáveis. Ele pode procurar novas oportunidades de trabalho, desenvolver novas competências ou negociar melhores condições. Embora essas opções possam não ser simples ou imediatas, são totalmente possíveis.
A lógica dessa responsabilidade individual é bem explorada no livro “Responsabilidade Extrema: como os Navy Seals lideram e vencem”, escrito por Jocko Willink e Leif Babin. Os autores defendem que assumir controle sobre aquilo que está sob nossa alçada é fundamental para permitir evoluções consistentes — tanto em cenários de combate quanto no ambiente corporativo.
É importante reconhecer a existência de lideranças ineficazes e profissionais descomprometidos além das relações desequilibradas entre as partes envolvidas. Contudo, esses problemas não definem a essência da relação entre empregador e empregado.
Muitas vezes o conflito origina-se em desalinhamentos: expectativas divergentes, falhas na comunicação ou culturas corporativas incompatíveis.
Nessas situações desafiadoras, cada indivíduo deve exercer aquilo que está ao seu alcance: seu poder de escolha, a responsabilidade pelas próprias decisões e a liberdade para buscar caminhos melhores — mesmo diante dos desafios apresentados.
A relação entre empregador e empregado caracteriza-se como uma parceria voluntária onde ambos dependem um do outro para alcançar o sucesso mútuo. As empresas necessitam das pessoas para crescer enquanto estas precisam das organizações para garantir renda e oportunidades. Quando um lado enfrenta perdas significativas, o outro também sofre as consequências disso.
Em última análise, os resultados obtidos refletem diretamente o grau de responsabilidade assumido por cada parte em relação às suas próprias decisões.
REFERÊNCIAS
SOWELL, Thomas. Fatos e falácias da economia. 7ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2022.
WILLINK, Jocko; BABIN, Leif. Responsabilidade Extrema: Como os Navy Seals Lideram e Vencem. Rio de Janeiro: Editora Alta Books, 2021.
Este texto reflete a perspectiva do autor e não necessariamente representa a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.
