*Artigo elaborado por Guilherme Silva Machado, analista de dados da Globalsys e integrante do IBEF Academy.
Desde que a prensa de Gutenberg foi criada no século XV, a maneira como as informações são consumidas passou por diversas transformações. Recentemente, a emergência das redes sociais, em especial o TikTok, sinalizou uma mudança drástica, caracterizada pela substituição da leitura profunda pelo consumo veloz e visual de conteúdos fragmentados.
A evolução das plataformas digitais, guiadas por algoritmos que priorizam interações imediatas e geram uma liberação constante de “dopamina barata”, suscita preocupações significativas sobre a diminuição da capacidade de concentração e da reflexão crítica. Esses elementos são fundamentais para o desenvolvimento cognitivo dos jovens e têm dado origem a um fenômeno comumente denominado “apodrecimento cerebral”.
É imperativo investigar como o vício em dopamina e a crescente exposição às telas afetam negativamente o foco e a educação das novas gerações. É vital argumentar que a conscientização e a responsabilidade no uso digital devem ser considerados essenciais para reverter essa tendência e promover o autodesenvolvimento.
Embora as redes sociais não sejam intrinsecamente problemáticas, assim como a imprensa ampliou o acesso à informação, as plataformas digitais democratizam o conhecimento. No entanto, o verdadeiro desafio reside no modelo que sustenta essas ferramentas: a economia da atenção, que transforma o tempo do usuário em um produto comercializável.
Um estudo da DataReportal (2024) revela que os jovens dedicam mais de 7 horas diariamente em frente às telas, com uma parte significativa desse tempo voltada para conteúdos curtos e repetitivos que alimentam ciclos rápidos de recompensa. A psiquiatra Anna Lembke discute em seu livro Dopamine Nation (2021) que estamos imersos em um ambiente repleto de estímulos constantes, o que diminui nossa tolerância ao esforço mental e já impacta nosso dia a dia.
<pO ator Matt Damon destacou que as produções contemporâneas estão se moldando para atender um público com menor capacidade de atenção, dado que muitos assistem aos filmes enquanto navegam nas redes sociais. Manter o foco requer esforço, e a facilidade da dopamina acaba por minar essa habilidade.
Esse contexto tem implicações diretas na leitura e na escrita. Os jovens estão cada vez menos propensos a ler textos longos e tendem a se acostumar com fragmentos informativos, resultando em dificuldades crescentes na interpretação.
Os resultados do PISA 2022 indicam uma estagnação ou até mesmo uma queda nas habilidades de leitura entre os estudantes brasileiros, com muitos deles situados abaixo dos níveis básicos esperados. Essa lacuna também se reflete na cultura; debates clássicos como se Capitu traiu ou não Bentinho em Dom Casmurro exigiam uma leitura cuidadosa e análise crítica — algo que hoje parece distante para muitos jovens, que lutam para sustentar análises aprofundadas. Sem habituar-se à leitura, o vocabulário se limita; sem praticar a escrita, o pensamento torna-se desorganizado.
Adicionalmente, emerge uma relação arriscada com recompensas instantâneas. O mesmo mecanismo que mantém os usuários envolvidos em vídeos curtos também aparece em outros comportamentos. O aumento das apostas online exemplifica esse padrão: a promessa de ganhos fáceis reforça a lógica da recompensa imediata sem esforço, alterando significativamente como muitos jovens percebem trabalho e disciplina.
Diante dessa realidade, é essencial reconhecer que tanto foco quanto autodesenvolvimento requerem constância; quem não assume responsabilidade sobre seus próprios estímulos acaba por tornar-se prisioneiro deles.
A discussão central permanece: o excesso de dopamina fácil aliado ao aumento do tempo exposto às telas ameaça o desenvolvimento cognitivo. Evitar o apodrecimento cerebral não implica abandonar a tecnologia completamente, mas sim aprender a utilizá-la de maneira consciente.
É fundamental reduzir o consumo automático de informações, valorizar práticas de leitura, exercitar o foco e assumir controle sobre como utilizamos nosso tempo. No final das contas, o problema não reside nas redes sociais em si, mas sim na falta de domínio sobre seu uso — consequência direta da diminuição da nossa capacidade reflexiva.
Este texto reflete a opinião do autor e pode não representar necessariamente a posição do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.
