Receber um diagnóstico de câncer representa uma mudança radical na vida da mulher. A partir desse instante, conforme apontam especialistas, a doença afeta profundamente todos os aspectos da existência da paciente, englobando sexualidade, autoestima, dinâmicas familiares e saúde mental.
Esse assunto foi amplamente discutido no 4º Congresso de Oncologia do Hospital Santa Rita, realizado no Centro de Convenções de Vitória. O evento reúne profissionais da saúde, estudantes e especialistas para explorar inovações, redes de cuidados e novas metodologias no tratamento do câncer. As atividades continuam nesta sexta-feira (15).
No decorrer do congresso, o ginecologista, obstetra e professor da USP, Jesus Paula Carvalho, apresentou uma palestra sobre “Saúde integral da mulher em tratamento oncológico: cuidado além da doença”. A ginecologista Maria Angélica Belonia abordou os efeitos da “Sexualidade, imagem corporal e autoestima após o tratamento oncológico”.
A especialista Maria Angélica Belonia destacou que “Após o diagnóstico de câncer, o foco passa a ser a doença”. Ela ressaltou a importância de reconhecer que por trás desse diagnóstico existe uma mulher com sua própria história, família e parceira que também estão envolvidos no processo de tratamento.
Impactos na sexualidade
Os tratamentos contra o câncer podem resultar em alterações significativas na vida sexual das mulheres. Muitas pacientes relatam experiências como secura vaginal, irritação, diminuição do desejo sexual e dificuldades para alcançar o orgasmo.
“Essas mulheres enfrentam irritações, mudanças nas relações afetivas e redução do desejo sexual, além de desafios nas interações com seus parceiros”, afirma a especialista. Para ela, é essencial proporcionar terapia psicológica e acompanhamento profissional adequado; em alguns casos, pode ser necessário incluir terapia hormonal.
<pDurante sua palestra, Maria Angélica enfatizou que as transformações físicas resultantes dos tratamentos têm um impacto direto na forma como as mulheres percebem seus próprios corpos.
Cifras alarmantes indicam que uma em cada dez mulheres diagnosticadas com câncer de mama acaba sendo abandonada pelo parceiro após a confirmação da doença. Essa informação foi coletada pela Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), em colaboração com a AstraZeneca e o Datafolha.
A pesquisa analisou respostas de 240 mulheres diagnosticadas com câncer de mama em cinco capitais brasileiras entre 5 e 13 de setembro de 2024. Ademais do abandono emocional, 40% das pacientes também enfrentam demissões durante o tratamento.
A Sociedade Brasileira de Mastologia aponta que muitas mulheres diagnosticadas com câncer passam por dificuldades emocionais e fragilidades nos relacionamentos ao longo do tratamento.
Tratamento integral necessário
Jesus Paula Carvalho, obstetra e professor da USP, argumenta que o cuidado direcionado às mulheres em tratamento oncológico deve se estender além do combate ao tumor.
Ele defende a necessidade de uma abordagem multidisciplinar que envolva médicos, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas e equipes de enfermagem.
De acordo com ele, o tratamento deve incluir apoio psicológico adequado, cuidados relacionados à sexualidade, reabilitação física e suporte nutricional ou hormonal quando necessário.
O ginecologista enfatizou a importância de equipes multiprofissionais preparadas para acolher não apenas a condição médica mas também os impactos emocionais e sociais vivenciados pelas pacientes.
No congresso, os especialistas concordaram que questões relacionadas à sexualidade devem estar presentes nas consultas oncológicas e que a recuperação da intimidade e autoestima das mulheres é um componente crucial do processo de cuidado.
