A divisão no Brasil vai além das eleições

*Artigo elaborado por Hugo Schneider Côgo, advogado com especialização em Direito Tributário pelo Instituto Brasileiro de Estudos Tributários, Executivo de Negócios no Martinelli Advogados e Vice-presidente do IBEF Academy.

O Brasil se apresenta como um país em profunda divisão política. Essa percepção de desunião permeia lares, locais de trabalho e interações sociais. Dados divulgados em 2026 pela Ipsos, uma empresa internacional de pesquisa de mercado, indicam que 57% da população brasileira acredita que a polarização política traz mais danos do que benefícios, 58% consideram que ela enfraquece a democracia e 72% se sentem incomodados com essa situação.

A questão vai além de meras divergências políticas; trata-se de um verdadeiro antagonismo.

Recentemente, tive a oportunidade de assistir à palestra de Bruno Garschagen, professor, escritor e cientista político. Ele abordou um aspecto ainda pouco discutido: a ideia de que, no Brasil, as mudanças políticas benéficas não dependem apenas de rearranjos partidários ou reformas estruturais, mas sim da transformação interna dos cidadãos brasileiros que vão além da dinâmica do conflito.

Comumente, o discurso vigente responsabiliza crises brasileiras por escolhas eleitorais inadequadas ou pela carência de reformas institucionais. No entanto, essa visão revela-se frágil ao tratar o problema como algo meramente partidário ou circunstancial, sem enfrentar suas verdadeiras origens.

Garschagen observa que a desordem política no Brasil não é um fenômeno recente. A República foi instaurada em 1889 através de um golpe militar e sem participação popular significativa. Desde então, o país tem enfrentado rupturas institucionais, governos autoritários e crises frequentes devido ao modelo republicano presidencialista adotado, que atrai para a política pessoas dispostas a explorar o Estado para benefício próprio e para seus aliados.

Por essa razão, reformas estruturais ou escolhas pontuais dos políticos não conseguem sanar o vício original da República brasileira, que prejudica a estabilidade do sistema político.

<pNesse cenário desafiador, Garschagen expressou uma crescente percepção entre diversas camadas sociais de que o Brasil precisa ser reestruturado tanto política quanto institucionalmente. Embora essa ideia seja compreensível, frequentemente ela é mal direcionada aos Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo.

Para Garschagen, o verdadeiro foco da mudança deve estar nas esferas onde cada indivíduo pode atuar: saúde, trabalho e família. Esses elementos constituem o núcleo fundamental da vida cotidiana. Quando as pessoas transferem o sentido de suas vidas para a política, acabam perdendo o controle sobre aquilo que realmente importa.

A instabilidade inerente à política torna-se um fator prejudicial quando há um envolvimento emocional excessivo com ela; isso mina áreas nas quais os indivíduos têm um papel direto e resulta na deterioração das relações familiares e pessoais.

Essa perspectiva deve também se estender ao ambiente empresarial. Garschagen ressalta que nenhuma informação chega isenta ao público; toda notícia carrega uma perspectiva política influenciada por quem a produz. Portanto, a utilização estratégica do conhecimento político requer distanciamento emocional e uma leitura crítica das informações apresentadas.

Entretanto, essa atitude não implica que os empresários devem abdicar da busca por um ambiente comercial mais estável. Ao contrário, ela incentiva um engajamento livre de paixões ideológicas que promova uma articulação responsável entre diferentes segmentos econômicos e sociais.

Nesse contexto, iniciativas como Espírito Santo em Ação, IBEF-ES e Instituto Líderes do Amanhã demonstram que quando há organização, responsabilidade e compromisso coletivo por parte da sociedade civil, esta pode oferecer sua contribuição mais valiosa à esfera política.

Em resumo, a palestra de Garschagen transmite uma mensagem crucial: a política não deve ser o centro das vidas das pessoas. Enquanto as soluções forem buscadas apenas em partidos políticos ou líderes específicos e reformas isoladas forem consideradas suficientes, a polarização continuará existindo.

Dessa forma, qualquer transformação duradoura começa com a responsabilidade individual e a transformação pessoal no cuidado com os aspectos mais próximos da vida cotidiana — áreas onde geralmente o discurso político raramente alcança. Assim sendo, a pergunta central deve deixar de ser sobre em quem votar para se tornar sobre quem cada cidadão se torna.


[1] A encruzilhada de 2026: polarização, desconfiança e governabilidade. Consulta em: 19.04.2026.

[2] A palestra proferida por Bruno Garschagen ocorreu em 16.04.2026 sob organização do Instituto Líderes do Amanhã.

Este texto reflete apenas a opinião do autor e não necessariamente representa o posicionamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo ou da organização à qual ele está vinculado profissionalmente.

By Aconteceu SP

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