Os produtores italianos de moda e design estão voltando seu olhar para o Brasil, com um interesse que transcende a simples aquisição de algodão. Eles estão avaliando a viabilidade de estabelecer a produção de tecidos no território brasileiro, e o Espírito Santo se destaca como uma opção viável. Essa informação foi compartilhada por Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), durante sua visita ao Estado.
A proposta é clara: enquanto a Itália possui renomadas marcas e um mercado consolidado em design e moda, o Brasil se destaca pela produção de algodão, sua matriz energética e capacidade escalonável. Contudo, atualmente, o país ainda exporta a maior parte desse recurso na forma de pluma. Isso significa que ele está enviando matéria-prima para fora, arcando com altos custos logísticos e perdendo grande parte do valor agregado que poderia ficar aqui. Assim, o Espírito Santo surge como um candidato promissor para agregar valor e impulsionar a riqueza gerada pelo produto nacional.
Alban sintetizou o desafio enfrentado: seria mais vantajoso exportar pluma de algodão ou enviar o tecido já produzido? A resposta a essa questão é crucial não apenas para o Brasil, mas também para o agronegócio, a indústria e especialmente para o Espírito Santo. Agregar valor ao setor agropecuário vai além de simplesmente aumentar os preços; trata-se de converter produção rural em uma cadeia industrial que gera empregos qualificados, tecnologia, renda e tributos.
A maior parte da produção nacional de algodão está concentrada no Mato Grosso. No entanto, a indústria responsável pela transformação desse algodão em tecido precisa contar com energia competitiva, logística eficaz e rotas bem definidas para escoamento. É nesse aspecto que o Espírito Santo se torna relevante na discussão. Embora não possua a maior área agrícola do país, ele oferece uma localização estratégica, portos eficientes, experiência em comércio exterior e proximidade com importantes centros consumidores e produtivos.
Do porto ao setor industrial: O papel do algodão
Alban destacou as competências do Espírito Santo em termos de infraestrutura portuária e logística eficiente, ressaltando sua capacidade de assumir um papel estratégico na reconfiguração das cadeias globais. O cenário mundial está passando por uma revisão em relação aos fornecedores, rotas logísticas, custos envolvidos e riscos geopolíticos. Dessa forma, aqueles que dispuserem de previsibilidade, energia adequada, infraestrutura portuária robusta e potencial industrial podem se destacar. O Espírito Santo já está inserido neste contexto no setor mineral e no comércio exterior e começa a explorar novas oportunidades na manufatura.
A possível chegada de fabricantes italianos para produzir tecidos no Brasil utilizando algodão local representaria uma mudança significativa: isso indicaria uma transformação na mentalidade do setor. O país deixaria de vender apenas peso em commodity para oferecer valor agregado.
Dessa maneira, o algodão deixaria sua posição como commodity para integrar uma cadeia produtiva que envolve design, moda, tecnologia, marcas consolidadas e margens maiores. Essa mudança é crucial para que o Brasil participe da economia global não apenas como fornecedor de insumos, mas como criador de riqueza industrial.
A agenda proposta por Alban dialoga com uma vocação latente no Espírito Santo que deve ser melhor aproveitada. O Estado tem potencial para atuar como um hub de entrada, processamento e saída de produtos com maior valor agregado. Ele pode conectar a produção agrícola do Centro-Oeste à indústria local, aos portos e ao mercado internacional. Além disso, pode utilizar suas vantagens logísticas para atrair indústrias que não dependem exclusivamente de grandes áreas cultiváveis. Nesse contexto entram fatores como inteligência logística, energia disponível e conexão global.
A advertência feita por Alban também serve como alerta às políticas públicas. Com a gradual eliminação das vantagens tarifárias propostas pela reforma tributária, os estados precisarão competir por investimentos baseando-se em sua competitividade real. Nesse novo cenário econômico, é essencial que o Espírito Santo transforme sua logística em um motor industrial robusto, seus portos em elos produtivos e sua localização em uma estratégia eficaz.
Caso consiga implementar essas mudanças estratégicas, o Espírito Santo poderá deixar de ser apenas um caminho para a exportação do Brasil e passar a ser um território onde há agregação real de valor antes da venda internacional dos produtos.
