*Artigo de Gleiciane Kempim, Analista de Operações e Negócios no Sicoob Central ES e Diretora Financeira do IBEF Academy.
A substituição do esforço físico pela revolução industrial e a automação de processos na revolução digital foram marcos transformadores. Agora, a inteligência artificial (IA) está prestes a modificar uma esfera que parecia ser exclusivamente humana: a produção de conhecimento e conteúdos intelectuais.
Atualmente, relatórios, análises e apresentações que antes consumiam dias inteiros de trabalho podem ser elaborados em questão de minutos. O que antes exigia um grande número de colaboradores pode agora ser realizado por apenas um profissional que tenha acesso às ferramentas adequadas. Entretanto, um ponto crucial ainda é frequentemente ignorado nas discussões sobre IA: o verdadeiro desafio não é necessariamente produzir mais, mas sim produzir com maior qualidade.
Normalmente, o debate acerca da inteligência artificial inicia-se com uma pergunta equivocada: será que a IA vai substituir os trabalhadores? Essa formulação é superficial para questões tão profundas e estruturais.
Em vez de focar nas profissões que poderão desaparecer, o cerne da questão reside em quais habilidades se tornarão desatualizadas e quais passarão a ter um valor ainda maior. Isso acontece porque a transformação atual transcende a tecnologia; ela é estratégica e profundamente enraizada na natureza humana.
Os indicadores do mercado já começam a revelar esse panorama. O relatório intitulado Habilidades em alta no Brasil em 2026, elaborado pelo LinkedIn, destacou o pensamento crítico como uma das competências mais importantes para o futuro do trabalho. Simultaneamente, a pesquisa People Trends 2026, realizada pelo Evermonte Institute com líderes de diversas partes do Brasil, identificou que a orientação para resultados está entre as soft skills mais valorizadas pelas empresas.
Ambas as pesquisas chegaram à mesma conclusão: as organizações não estão apenas valorizando profissionais que dominam ferramentas tecnológicas, mas aqueles capazes de interpretar, validar e transformar dados em resultados efetivos.
Essa mudança altera completamente a dinâmica entre trabalhadores e tecnologia. Hoje em dia, praticamente qualquer pessoa tem a capacidade de usar ferramentas de IA para criar conteúdos ou análises.
O acesso à tecnologia passou de um diferencial competitivo para uma exigência básica no mercado. A verdadeira vantagem agora reside na qualidade do julgamento humano aplicado ao que é produzido pela tecnologia. Afinal, aumentar a produção sem critérios adequados resulta em desordem. Realizar tarefas rapidamente não implica fazer isso com excelência. Produzir mais informações não equivale a agregar mais valor.
É nesse contexto que surge o profissional essencial na era da inteligência artificial. Esse novo trabalhador terá duas funções simultâneas: por um lado, ele deve ser capaz de utilizar tecnologias para aumentar sua produtividade e causar impacto; por outro lado, sua função será também atuar como um revisor crítico que questiona premissas, valida dados e assume responsabilidade pelas decisões tomadas.
Embora as ferramentas de IA consigam correlacionar dados com uma rapidez impressionante, elas carecem de compreensão sobre contextos, riscos reputacionais ou as consequências estratégicas das decisões corporativas. Essa responsabilidade permanece sendo uma atribuição humana.
Por isso, o conceito de Human-in-the-loop ganha cada vez mais relevância: o papel humano deve estar no centro do processo decisório não como uma figura decorativa que simplesmente aprova os resultados gerados pela IA, mas como um agente ativo responsável por definir critérios, questionar os resultados e assumir responsabilidade pelos impactos finais.
No final das contas, embora a IA venha a eliminar muitas tarefas rotineiras, ela não extinguirá a necessidade de discernimento humano. Pelo contrário: à medida que as operações se tornam mais automatizadas, maior será o valor dos profissionais capazes de formular perguntas pertinentes, interpretar cenários complexos e tomar decisões mesmo diante da incerteza.
O profissional do amanhã não será aquele que mais utiliza IA; será aquele que melhor compreende como utilizá-la e, acima de tudo, quando optar por não utilizá-la. Isso porque, apesar da tecnologia ter capacidade para acelerar processos e entregas, as competências relacionadas à responsabilidade, julgamento e pensamento crítico continuam sendo inegavelmente humanas.
Este texto reflete apenas a opinião do autor e não representa necessariamente o posicionamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo ou da organização à qual esteja vinculado profissionalmente.
