Da bicicleta ao empreendedorismo: como a teoria dos ganhos marginais impulsiona um desenvolvimento sustentável

*Artigo de autoria de Maria Clara de Almeida, Engenheira Civil e Gerente de Obra na Mazzini Construtora e Incorporadora, além de Membro do IBEF Academy.

A busca por inovações disruptivas e transformações radicais é um desejo comum entre as empresas que almejam uma grande reviravolta nos seus negócios. No entanto, essa narrativa é muitas vezes sedutora, mas também ilusória.

Diferenciar aquelas empresas que crescem de forma estável das que enfrentam oscilações entre períodos de crescimento e estagnação não se resume a um único evento transformador. Na maioria das vezes, o que realmente faz a diferença é a acumulação sistemática de pequenas melhorias que costumam passar despercebidas.

Esse conceito de aprimoramento contínuo é muito presente no esporte e pode ser aplicado eficazmente no ambiente corporativo. Em 2003, Dave Brailsford foi nomeado diretor de performance da equipe britânica de ciclismo. Até então, o time havia conquistado apenas uma medalha de ouro em mais de cem anos e nunca havia vencido o Tour de France.

A abordagem adotada por ele não foi buscar os melhores ciclistas ou criar tecnologias revolucionárias. Em vez disso, Brailsford implementou o que chamou de “agregação de ganhos marginais”, focando em melhorar cada elemento que impacta o desempenho dos ciclistas em 1%. Essa estratégia abrangeu tanto aspectos evidentes como nutrição e treinamento quanto detalhes menos óbvios, como a qualidade dos travesseiros utilizados pelos atletas durante o sono.

Embora nenhuma dessas mudanças tivesse um impacto significativo isoladamente, a soma delas resultou em grandes transformações. Inicialmente, Brailsford estimou que levaria cinco anos para a equipe vencer o Tour; surpreendentemente, isso ocorreu em apenas três anos.

Durante os Jogos Olímpicos de Londres em 2012, a equipe britânica conquistou 70% das medalhas de ouro disponíveis na modalidade ciclismo de pista. Além disso, naquele mesmo ano, eles alcançaram uma vitória histórica no Tour de France e continuaram com mais quatro triunfos nos anos seguintes.

Transferir essa lógica para o setor corporativo é relativamente simples, mas nem sempre é tão evidente quanto deveria ser. Muitas organizações conseguem identificar questões críticas, mas raramente fazem um mapeamento detalhado dos pequenos problemas e ineficiências que parecem irrelevantes isoladamente. No entanto, coletivamente, esses fatores podem ser determinantes para diferenciar um desempenho mediano de um excepcional.

Brailsford expressou sua filosofia com clareza: “Se você desmontar tudo que envolve pedalar uma bicicleta e melhorar cada parte em 1%, isso resultará em um ganho significativo quando tudo for reunido.”

Os líderes podem se perguntar: “Se eu analisasse cada componente do que fazemos e melhorasse cada um deles em 1%, qual seria o resultado?”. Embora os frutos dessa abordagem possam não ser visíveis imediatamente, ela tende a servir como uma base sólida para um crescimento sustentável ao longo do tempo.

Embora grandes inovações gerem mudanças rápidas e impactantes, elas são complexas e desafiadoras para garantir crescimento contínuo. Uma ideia brilhante pode abrir novas oportunidades; contudo, em mercados competitivos cada vez mais acirrados, a disciplina diária na melhoria contínua do existente se mostra fundamental para manter uma empresa competitiva. Isso começa com uma decisão pessoal: tratar cada detalhe como relevante porque, no fim das contas, eles fazem toda a diferença acumuladamente.

Referências

CLEAR, James. Marginal Gains: This Coach Improved Every Tiny Thing by 1 Percent. JamesClear.com, 2020. Disponível em: jamesclear.com/marginal-gains

HARRELL, Eben. How 1% Performance Improvements Led to Olympic Gold. Harvard Business Review, out. 2015. Disponível em: hbr.org/2015/10/how-1-performance-improvements-led-to-olympic-gold

Este texto reflete a perspectiva do autor e não necessariamente representa a posição do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo ou da entidade à qual esteja associado profissionalmente.

By Aconteceu SP

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