A antecipação do capital em relação à formação profissional

*Artigo redigido por Hugo Schneider Côgo, advogado especializado em Direito Tributário pelo Instituto Brasileiro de Estudos Tributários e Vice-presidente do IBEF Academy.

Entre 2025 e 2027, o Espírito Santo necessitará capacitar cerca de 279,7 mil trabalhadores, conforme as projeções contidas no Mapa do Trabalho Industrial, publicado pela Findes. Essa quantidade reflete uma disparidade no ritmo de formação e demanda.

Os novos projetos têm prazos específicos para a implementação de equipamentos e a contratação de serviços, mas a preparação dos profissionais que irão desempenhar essas funções exige um tempo anterior à execução. Quando os investimentos são realizados antes que as competências estejam disponíveis, as vagas criadas podem não ser ocupadas pelos habitantes do Estado.

A análise dos números revela o desafio subjacente. Dentro do total previsto, 47,4 mil indivíduos precisarão de formação inicial para acompanhar o aumento das oportunidades de trabalho e substituir aqueles que sairão do mercado formal. Além disso, 232,4 mil já estão empregados em alguma área e demandarão treinamento e desenvolvimento adicionais.

Esses dados representam uma estimativa da necessidade por formação, não se referindo a vagas já confirmadas. Contudo, indicam que a maior parte se concentra em profissionais com experiência anterior. A predominância da requalificação destaca que o conhecimento adquirido no início da carreira deve ser constantemente atualizado ao longo do percurso profissional.

As áreas de logística, construção civil, manutenção e metalmecânica se destacam entre os setores que mais exigirão mão de obra qualificada no Espírito Santo. A discrepância entre a demanda e a oferta de trabalhadores nessas áreas pode impactar tanto os prazos quanto os custos das obras.

Quando a capacitação acontece somente após a criação das vagas, as empresas acabam disputando profissionais que já estão empregados, o que eleva os custos de contratação e pode dificultar a execução dos projetos. Além disso, é possível que algumas posições sejam preenchidas por pessoas provenientes de outras regiões caso as competências necessárias não estejam disponíveis localmente.

A simples multiplicação de cursos não solucionará esse descompasso existente. É essencial que o conteúdo programático, a localização das aulas, sua duração e as experiências práticas estejam alinhados às atividades para as quais as vagas serão abertas. Sem essa conexão clara, um aumento no número de matrículas pode ter um impacto limitado na ocupação das oportunidades disponíveis.

Nesse cenário, promover uma aproximação entre empresas e instituições educacionais é fundamental para antecipar as competências requeridas e proporcionar experiências reais de trabalho aos alunos. Os empregadores devem se envolver ativamente na formação dos futuros profissionais, especialmente quando as habilidades demandadas dependem das tecnologias e métodos utilizados em suas operações diárias.

Entretanto, a formação profissional por si só não explica toda a dificuldade no recrutamento. Fatores como remuneração, carga horária, deslocamento, benefícios e perspectivas de carreira influenciam fortemente na decisão dos candidatos em aceitar e permanecer em um emprego, conforme indicado em uma reportagem sobre o mercado capixaba.

Enquanto algumas posições permanecem abertas devido à falta de conhecimentos específicos, outras têm dificuldade em atrair ou manter profissionais já qualificados. Essas diferentes situações demandam abordagens específicas para serem resolvidas adequadamente.

Dessa forma, enfrentar a demanda projetada de 279,7 mil profissionais requer mais do que simplesmente abrir novos cursos. A maioria desse grupo já está inserida no mercado e necessita atualizar suas habilidades. As empresas também devem antecipar suas demandas futuras e participar ativamente da formação específica enquanto avaliam se suas condições são atrativas o suficiente para reter talentos.

Portanto, o verdadeiro desafio reside em alinhar o conteúdo dos cursos às competências exigidas pelas vagas disponíveis e sincronizar o tempo necessário para a formação com os cronogramas dos investimentos. Sem essa coordenação eficaz, o Espírito Santo poderá aumentar o número de diplomas emitidos sem conseguir sanar as dificuldades na contratação dos profissionais necessários.


[1] Federação das Indústrias do Espírito Santo. Espírito Santo precisa qualificar 279,7 mil profissionais até 2027. https://findes.com.br/espirito-santo-precisa-qualificar-2797-mil-profissionais-ate-2027-segundo-senai/. Consulta em: 29 de agosto de 2026.

[2] g1 Espírito Santo. Como o apagão de mão de obra vira barreira para crescimento da economia do ES. https://g1.globo.com/es/espirito-santo/noticia/2026/02/11/como-o-apagao-de-mao-de-obra-vira-barreira-para-crescimento-da-economia-do-es.ghtml. Consulta em: 29 de agosto de 2026.

Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente representa a posição do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo ou da organização à qual ele está vinculado professionalmente.

By Aconteceu SP

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